terça-feira, 10 de novembro de 2009

A Paixão e a Escrita


Sergey Sundikov 123RF

José Castello, ao falar de um livro sobre a vida de Clarice Lispector, recém lançado, fala de paixão e de literatura. Cita diversos escritores/ras de prosa e poesia que se entregaram a paixões e palavras, vivendo as consequências da tamanha entrega.

Sempre é um ponto de interrogação o caminho percorrido por uma paixão. A linha de chegada é uma surpresa. Tal sentimento pode tanto levar à “vida” como à “morte”. Pode levar tanto à alta produtividade como à prostração.

Não há como saber. Uns embarcam e vivem como trapezistas tentando se equilibrar, outros não compram os tickets e podem se arrepender, ou não. Seja qual for a escolha, uma paixão nunca passa incólume na vida de ninguém.

O texto completo de Castello está no endereço:

http://bravonline.abril.com.br/conteudo/literatura/clarice-lispector-infelicidade-inspiradora-510195.shtml

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A morte é para todos


alexreller 123RF

Nestes primeiros dias de novembro, morreu o antropólogo Claude Lévi-Strauss aos cem anos de idade. O pai do Estruturalismo, como qualquer outro mortal, morreu.

Nunca pensei que fosse durar para sempre, afinal a morte é a única garantia. Mas não deixa de ser curioso pensar que grandes personalidades, por suas criações, sejam elas quais forem, morrem como qualquer um. O coração é um ignorante, não sabe ler nem pensar, apenas bate até quando dá.

Em nada tais criaturas especiais serão poupadas. Pensem, por exemplo: a voz de Pavarotti não evitou que seu corpo parasse de funcionar; as teorias de Freud não lhe imunizaram frente ao câncer e; finalmente, as contribuições de Lévi-Strauss, nas mais diferentes áreas do conhecimento, não lhe deram vida eterna.

Os seus “filhos”, isto é, obras, pensamentos e criações, estes sim, são para sempre. A partir deles, seus nomes e ideias viverão nos bancos acadêmicos e demais meios intelectuais.

Definitivamente o corpo humano não chega à eternidade, mas as ações realizadas durante a vida podem sim atravessar séculos.

domingo, 8 de novembro de 2009

Um beijo


Alexey Repka 123RF


Soube que o filme “I love you Phillip Morris”, exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, atraiu centenas de espectadores, sendo que muitos deles ficaram frustrados pela cena do beijo entre os personagens, interpretados pelos atores Jim Carrey e Rodrigo Santoro, ter sido cortada (mas não por censura!).

Os diretores Glenn Ficarra e John Requa explicaram que o “beijo” estará nos extras do DVD. O filme entra em circuito comercial em fevereiro de 2010. Além dos dois atores citados, há também Ewan McGregor, que interpreta Phillip Morris.

É curioso que no Brasil do século XXI um beijo entre dois conhecidos atores, do mesmo gênero, cause um interesse quase juvenil por parte da plateia. Claro que se acrescenta aí o fato de Santoro ser um dos galãs do nosso país. Mesmo que este não seja o seu primeiro papel longe do arquétipo de mocinho, houve, por exemplo, a “Lady Di”, do filme “Carandiru”, só para fica na temática da sexualidade.

Raramente são atribuídos elementos afeminados a papeis de atores que vestem o personagem de galã. Afinal, este abarca o imaginário do homem forte, vigoroso, às vezes apaixonado ou distante da mulher amada.

O interessante disso é que vários atores que fazem tais personagens são homossexuais na “vida real”. Como eles são, comumente, confundidos como aparecem na tela, continuam a ser vistos como seus personagens e para manter a “imagem”, muitos guardam seu “segredo”.

A partir do final da década de 1940, o ator Rock Hudson fez muito sucesso pelas dezenas de filmes de valentões em faroestes, dramas e comédias, assim como por sua beleza. Dizem que em função dos rumores de que o ator gostava de homens, em Hollywood, seu agente o aconselhou a se casar com sua secretária. O casamento durou três anos. Ao assumir ser doente de AIDS, na década de 1980, veio à tona sua homossexualidade, visto que nesta época se pensava que tal síndrome era estreitamente ligada à comunidade gay.

Apesar de hoje ainda testemunharmos a homofobia em vários segmentos sociais, o cinema apresentar dois famosos e bem conceituados atores, cada um em seu território, se beijando na boca pode ser encarado como um avanço. Já Hudson enfrentou uma sociedade muito mais fechada para tais possibilidades.

sábado, 7 de novembro de 2009

O Ego e o Blog


Tatyana Ogryzco 123RF

“Um blog é muito melhor que o Tamagotchi, tem mais recursos, mas raramente dá sinais de satisfação, como ele quando era alimentado e limpado. É uma escrita cotidiana, mas pressupõe um enorme dum ego por parte do escritor, para supor que se tem interessados com uma certa regularidade no que se tem a dizer”.

As palavras acima são de um texto intitulado “Eu voltei (de viagem) e vim para ficar”, da psicanalista Diana Corso, que li no blog que ela divide com seu marido, e também psicanalista, Mário Corso.

Escrever um blog exige mesmo um “senhor ego” do seu autor, porque se escreve sem ter um eco imediatamente. Às vezes esse eco vem posteriormente, às vezes não. Quando não vem não significa, necessariamente, que não esteja agradando. Lógico que há possibilidade de sim estar desagradando e desinteressando o leitor!

Com isso não quero nem desmerecer quem faz comentários ou fala comigo sobre o blog, mil vezes obrigada! Vocês fazem parte de uma resposta muito carinhosa que tenho. Nem desejo pedir por isso! Até porque sou uma leitora anônima a maior parte do tempo. Leio coisas muito legais pelo mundo virtual e comumente não faço qualquer menção de entrar em contato com o responsável.

Apenas quis comentar sobre essa peculiaridade “blogueriana” que talvez quem tenha um blog saiba como é e quem não tem possa imaginar. É uma escrita solitária que deseja e talvez encontre uma companhia.

Não deixo de ver poesia e prazer em tudo isso, mas que exige um ego, exige!

No endereço abaixo está o texto completo da Diana:

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Coisas do amor: o que resiste em nós


Bojana Ilic 123RF

Facilmente constatamos as mudanças contemporâneas no âmbito dos relacionamentos afetivos. Sabemos disso de olhos fechados. A questão não é essa, mas sim o que permanece em nós em meio a tantas mudanças.

Observamos pessoas se relacionando com a agilidade do clique de um mouse ou de botões do controle remoto; porém, há um elemento que sobrevive. Que sobrevivente é esse? O desejo do encontro. Exceções existem. Há aqueles que dizem que não querem ninguém para valer, só por uma noite já está legal, o que não deixa ainda de ser um encontro! No entanto, não é deste tipo de ligação afetiva que estou aqui a falar.

Quero falar de um verdadeiro “encontro”. Com direito ou não ao romantismo. Pode ser uma companheira para as férias ou um companheiro para o cinema. Tanto faz a justificativa. Por trás dela, está um sincero desejo de estar junto com alguém. Há uma parte de um poema do psicodramatista Jacob L. Moreno que diz:

“Um encontro de dois: olhos nos olhos, face a face.

E quando estiveres perto, arrancar-te-ei os olhos:

e colocá-lo-eis no lugar dos meus;

E arrancarei meus olhos

para colocá-los no lugar dos teus;

Então ver-te-ei com os teus olhos

E tu ver-me-ás com os meus.”

Este poema fala sobre qualquer encontro, nas mais variadas circunstâncias, portanto, não exclusivamente o amoroso. O que há de bonito nele é a possibilidade de uma entrega total, de olhar o outro com os olhos do outro e vice-versa. A oportunidade de se desnudar para o outro e aceitar o seu desnudamento.

Ouve-se falar que tudo está mais banal e superficial. Muitas coisas sim estão dessa forma. Todavia, não há só isso. A herança romântica sobrevive em nós. Entre muitos amores frugais, regados com os impulsos do momento, sobrevivem ainda aqueles que são pensados, desejados, planejados com os detalhes que esses sentimentos exigem.

Os valentes seguram firme a sua vontade de viver uma história de amor e tentam resistir a esse ritmo frenético em que parece que tal história está fora de moda. Dialogam com o poeta Vinícius, acreditando que o sentimento pelo outro pode ser chama, portanto não eterna, mas é infinito o desejo de amar.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A grandeza dos detalhes




Uma das principais coisas que me chamaram a atenção quando cheguei à Inglaterra e continua a me atrair são os detalhes pensados pelos ingleses. Entre as minúcias arquitetadas, há aquelas que admiramos sinceramente e aquelas que nos pegam pela surpresa, até podendo causar riso pelas diferenças culturais.

Para exemplificar contarei dois fatos:

O primeiro, referente à foto acima. Você está em Bath, passeando com seu cãozinho em uma praça. Ao fazer suas necessidades fisiológicas na rua, os ingleses facilitam para que você, um dono consciente, pegue a “obra” de seu cãozinho e coloque na lixeira apropriada. O dono limpar as sujeiras do cão, feitas na rua, não é novidade. O novo aqui é o lixo específico para isso! Assim, evitando misturar os lixos.

O segundo episódio se relaciona com a Universidade de Essex, aqui em Colchester. Ela se localiza em uma área arborizada, há uma parte com lagos, patos, pássaros e árvores, tudo muito bonito.

Por essas redondezas, há espaço para se fazer churrasco, sendo uma excelente oportunidade para os estudantes confraternizarem. Para isso, você deve preencher um formulário (Barbecue Application) e pegar o material necessário.

Que material é esse? Coisas básicas como: extintor de incêndio, produtos de primeiros socorros etc. Impossível não lembrar dos carnavais adolescentes em São Gabriel em que os “churrasquinhos de gato” faziam o maior sucesso sem nada dessa aparelhagem. Eram somente aquelas churrasquerinhas pelas calçadas.

Sejam lixos específicos para as necessidades caninas ou instrumentos contra acidentes em churrascos, os ingleses surpreendem pela previsibilidade, tentando impor sua prudência sobre as coisas da vida. Não há como prevenir tudo, mas o que dá, eles tentam.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

"Há tanto tempo que te amo”



Assisti um filme, em DVD, chamado “Il y a longtemps que je t’aime” (Há tanto tempo que te amo). A direção é de Philippe Claudel, as atrizes principais são Kristin Scott Thomas e Elsa Zylbertstein. Todos magníficos em seus desempenhos.

Gostar ou não de um filme depende de vários aspectos: o estilo do mesmo, o momento que estamos vivendo, o contexto em que estamos vendo o filme, como acordamos etc. Há filmes que da primeira vez que vi não gostei e da segunda adorei, e vice-versa. Os filmes não mudam, somos nós quem mudamos.

Então, sugiro tal título com muita delicadeza, até mesmo para não se chegar frente a ele com tantas expectativas. Lembrem que a imaginação é quase sempre maior que a realidade.

O filme conta a história de duas irmãs que se unem após anos de separação. O pano de fundo, ou melhor, o que está entre todos os personagens é a seguinte questão: como é possível lidarmos com um passado tão terrível?

Além disso, outras perguntas surgem com o filme. Assim, como se faz para lidar com as dores e as culpas que podem contaminar nossas ações de uma hora para outra? Como sou vista e como me vejo sendo detentora de tal destino? Quais são os dispositivos que possuo que podem colaborar para retomar a minha vida? Quais são as pessoas que conseguem confiar em mim com o passado que tenho? Como sobrevivo frente aos julgamentos alheios?

Enfim, o filme não se preocupa em ter todas as respostas pedagogicamente e é essa, na minha opinião, a grande sacada dele. Ele simplesmente acontece frente ao expectador.

O filme é super bem costurado, os personagens são bem construídos, as interpretações espetaculares. Sem dúvida, você pode se sentir, como eu, testemunha de algo grande acontecendo a sua frente.

Algo bonito e doloroso, como a vida é.


Com propriedade de crítica de cinema que é, Isabela Boscov fala do filme, no endereço http://www.youtube.com/watch?v=pqofV3NMhGk.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Querer fazer e ter que fazer


Ionut Dan Popescu 123RF

Hoje em dia é quase impossível você ficar sem fazer nada de produtivo sem culpa. É um desafio da contemporaneidade essa capacidade. Você tem uma tarde livre no dia da semana, coisa raríssima. Você bem que poderia ir para casa curtir uma pipoca assistindo a sessão da tarde. Você conseguiria?

Talvez sim, mas em alguns momentos poderiam surgir pensamentos do tipo “bem que podia estar arrumando os armários”, “eu poderia ter ido dar jeito naquilo que está atrasado”. Enfim, você poderia ter feito algo mais “útil”.

Essa síndrome utilitarista que nos ronda, a ideia que a gente tem que estar fazendo coisas úteis sempre que possível acaba nos escravizando.

Uma amiga recentemente comentou comigo um texto da Lya Luft, que não li, sobre o “ter que”. Isso de nos exigirmos estar no padrão colocado (ideal, claro) de sermos super: super mulher, super profissional, super mãe, super amiga, super viajada, super bonita etc.

Não tem jeito, há coisas que temos que fazer e pronto como, por exemplo, levantar cedo e sair para trabalhar em um dia de temporal. Todavia há coisas que elegemos como “ter que” que podem ou devem ser substituídas por querer fazer.

Penso que é um exercício diário se livrar das algemas que nós mesmos nos colocamos. Mas se fomos nós que as colocamos, quem melhor para tirá-las?

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Confiança II



A cena já foi testemunhada dezenas de vezes. A corner shop perto daqui de casa não está aberta bem cedo da manhã. O fornecedor de leite e pão faz a entrega cedo. Como a loja está fechada, o que ele faz? Ora, deixa em frente à loja. Quando o dono chegar, guardará a mercadoria. Prático, não?

Faz-nos rir, claro, pela estranheza que sentimos. Como viemos do Brasil, com suas altas taxas de criminalidade, observar este hábito causa surpresa e toca naquele assunto já escrito aqui, em setembro, sobre a confiança.

Confiança, penso eu, é a capacidade humana de crer no outro. Acreditar na bondade e esquecer, deixar de lado, a maldade ou os defeitos de muitas personalidades que povoam esse mundo.

No meio a tantas notícias que lemos, ouvimos, vemos, além das experiências que podemos ter tido com o assunto violência, nos tornamos pessoas desconfiadas. Não é tão frequente nos depararmos com aqueles que, sem garantias, esperam o melhor de nós.

Isso acontece aqui. Claro que há crimes e vários problemas. Mas cenas como estas de Colchester nos faz pensar sobre o que realmente significa a capacidade de sermos fraternos.

domingo, 1 de novembro de 2009

Feiras do Livro


Andrey Khritin 123RF

Oi pessoal, para quem aprecia uma boa leitura, sexta-feira começaram as feiras do livro de Porto Alegre e de Pelotas. Além das ofertas de livros, sempre há uma programação cultural interessante.
Aproveito para sugerir bons escritores: Milton Hatoum e Clarice Lispector, dos mais densos, José Pedro Goulart e Kledir, dos leves com qualidade, além de Luis Fernando Veríssimo e sua vasta obra.

Encontrei dicas de livros de David Coimbra, Claudia Laitano e Martha Medeiros e compartilho com vocês. Os endereços do vídeo dos dois primeiros e o texto da Martha estão abaixo:




Ainda dentro do assunto, finalizo, com um blog muito legal do jornalista Carlos André Moreira e a equipe do Segundo Caderno, da ZH.