quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Up in the Air




O filme “Amor sem escalas” caiu na graça do público e não sem motivos. Trata-se de uma história interessante, com diálogos bem construídos e elementos da vida real, fazendo com que a ficção se torne ainda mais próxima da realidade. Nem é preciso confirmar o que se imagina: é um tanto triste o que se vê desenrolar na tela do cinema.

Claro que essa tristeza, derivada de questões existenciais nossas, não nos faz desgostar do filme ou criar um arrependimento por tê-lo visto. A melancolia nos aproxima dos personagens.

O diretor, Jason Reitman, é o mesmo do original “Juno” e faz igualmente aqui um trabalho competente. A história gira em torno de Ryan (Clooney), que trabalha demitindo funcionários de empresas em crises, o que o faz viajar durante quase todos os dias do ano. Os aeroportos, os aviões e os hotéis são a sua casa, são lugares em que ele se sente bem. Sua mala super prática e sua técnica de fazer check-in e check-out com rapidez são eficientes.

Ele dá palestras motivacionais, cuja filosofia combina bastante com seu estilo de vida e foge do padrão que elegemos como a ideal, ou por que não a “normal”.

O pano de fundo do enredo é a solidão. Somos sós e podemos diminuir essa sensação, caso estejamos preparados para enfrentar riscos afetivos ou podemos abraçar o estado solitário, arcar com a incompreensão alheia e buscar defesas para sobreviver no limbo.

Como já dito, o filme vale a pena. Não será o melhor filme da sua vida, provavelmente, mas é um filme que convida à reflexão e, já por isso, vale.



Para saber mais:

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

SOS Escola

Karam Miri 123RF


Na edição da revista Veja desta semana, é mostrado o resultado de uma pesquisa, realizada pela Fundação Carlos Chagas, que revela que apenas 2% dos estudantes de escolas públicas e privadas pensam em fazer o curso de pedagogia, isto é, dedicar sua vida ao ensino. Além disso, essa pequena porcentagem de atraídos pela labuta escolar pertencem ao grupo dos 30% com as piores notas no histórico de notas.

Se existisse um mundo perfeito, os professores seriam as pessoas mais bem valorizadas, reconhecidas social e financeiramente. Vocês têm noção da importância dessa profissão?

Nesse universo ideal, os professores falariam dois idiomas, no mínimo. Viajariam regularmente para apresentar trabalhos, participar de congressos e também por turismo. Eles comprariam livros frequentemente, faltando espaço em casa para a biblioteca.

Eles teriam televisão a cabo, que disponibiliza programas mais culturais, iriam a cinemas e teatros, como quem vai para o restaurante no domingo.

Os mestres teriam condições de morar bem, de comer beber, de se vestir adequadamente, enfim, as questões básicas seriam atendidas plenamente. Ainda conseguiriam fazer poupança!

Na escola, seriam respeitados pelo seu conhecimento e por sua competência no ensino e no trato social. Os pais os veriam como auxiliares na educação e vice-versa.

Estes profissionais teriam escolhido a pedagogia por vocação, por gostar de ensinar e de estudar. Nem pensar uma opção feita por esta ser a única porta aberta para o ensino superior!

Escapei para a idealização, porque o fato é muito sério: os nossos professores estão na UTI! Esperança é necessária, eu sei, mas quando lemos que a educação está fraca e que não se trata apenas de alunos preguiçosos e indisciplinados, mas também daqueles que deveriam dar o exemplo... Ai, é demais!

O que me faz respirar melhor é lembrar que há professores que resistem a essa onda. São competentes e não se entregam a queixas contra o governo, contra o sistema etc. Cumprem seu papel, apesar de tudo, com maestria, e nos fazem pensar que o mundo ideal poderia existir, pelo menos, em partes.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O calor não humano

Nelli Shuyskaya 123RF

Na edição do Fantástico de ontem, foi mostrada uma matéria sobre o calor dentro da casa de uma moradora do Rio de Janeiro. O seu quarto, assim como o de seu neto, não têm ar-condicionado, apenas ventiladores, causando, assim, um grande desconforto na hora de dormir. Seguramente, não é apenas na casa da senhora da reportagem. Não sei como ainda não derretemos!

Não há como não ser clichê, todos os dias repetimos ou ouvimos a frase “que calor!”. Não há a possibilidade de sermos originais. O calor continua quando o sol vai embora. O governo deveria, com todo o respeito as demais mazelas dos cidadãos brasileiros, fornecer bolsa-condicionador de ar.

Lembra do tempo que ar geladinho era luxo e completamente supérfluo? Esqueça, não é mais. Tornou-se item básico, de proteção à saúde, principalmente a mental. O clima “forno” altera nosso humor, nossa capacidade de trabalho e nos faz desejar sermos peixes ou ursos polares.

Faço aqui minha reclamação: ou o bolsa-ar ou para tudo, ninguém faz mais nada! Ficaremos todos nós embaixo de árvores ou dentro d’água, mas seguir uma rotina “normal”, não é possível. Na verdade, possível até é, afinal, estamos fazendo isso, não?

Outra ideia, como comentei com um amigo, seria inventarem uma roupa com gelo dentro, com uma tecnologia que refrescasse nosso corpo na medida certa. Esse calor, decididamente não é humano! Conseguiremos sobreviver até abril?

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A Teoria do Som

oleksiy 123RF


Certamente você já esteve na rua e passou por você um carro com som, ou seja, um carro emitindo um som altíssimo. Se você não teve tanta sorte assim ele estacionou perto de onde estava, e aí uma música ensurdecedora emudeceu seu papo. Se a sorte se foi de vez, a música é do estilo que você detesta. Aí, falta pouco para você ir embora ou mudar de lugar.

Dias desses estava atenta ouvindo o rádio no carro, quando outro carro parou ao meu lado na sinaleira. O “vizinho” tinha caixas de som no porta-malas a todo vapor. Ele não se contentou em ouvir a sua música; quis compartilhá-la com quem estivesse nas ruas por que passava.

Logo pensei em uma teoria: a pessoa é tão sedenta por ser ouvida, não se sente escutada, que precisa, mediante a música, se expressar, se fazer presente. O pobre coitado necessita de potentes caixas de som para se sentir mais “gente”. Ele tem o desejo de gritar ao mundo suas necessidades, suas vontades, seus pensamentos e seus sentimentos e, por alguma razão, é calado; então, pela música, realiza sua frustrante intenção.

Claro que essa teoria pode ser uma furada, a criatura pode ser surda ou simplesmente gostar de música alta e não estar nem aí para os outros. De um jeito ou de outro se sentir invadida por uma música altíssima, cujo volume não está sob seu controle, é uma chateação.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Vende-se trabalho de vereador


Ionut Dan Popescu


Muitos vereadores contratam empresas especializadas em fazer projetos, não em ajudar, mas fazer, entregar pronto ao contratante. Esta foi a notícia que recebi, dias atrás de um amigo. Sim, meu caro, o vereador resolve de modo mais “simplificado” o seu trabalho.

Não é uma receita de bolo que se quer pronta, sem ter, necessariamente, os ingredientes fundamentais. Há várias entidades e meios que assessoram o edil a realizar o seu projeto. Da mesma forma, projetos antigos, como modelos podem ser úteis. Mas soa antipático e questionável aquele vereador que, em vez de se envolver com a comunidade, ouvi-la, dar espaço aos moradores manifestarem suas necessidades, resolve simplesmente contratar uma consultoria que vai lhe dar um projeto “bonito” no papel e que poderá servir como material de campanha política, mas se for para a prática poderá não dar certo.

Afinal de contas, cabe ao vereador planejar, criar os projetos. Se ele pretende terceirizar sua função, talvez seja mais honesto terceirizar sua vaga na Câmara também.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Pessimismo x Otimismo


Cristina Cazan 123RF


Pessimismo versus Otimismo é algo já muito discutido. Algumas pessoas se identificam com um lado; outras com o outro. O importante é não ser pessimista com desespero nem otimista com os pés no ar. O famoso equilíbrio.

O pessimismo enfraquece, faz sumir a esperança ou perder sua importância, pode viciar o pensamento e as emoções, tornando tudo potencialmente escuro. Ao contrário, o otimismo fortalece, potencializa a criatividade e a inteligência, assim como a atenção ao mundo, propiciando um clima mais claro.

Sem dúvida, o otimista é mais feliz, mesmo que ele venha a sofrer com o inesperado. O pessimista sofre em dobro: não somente pelo inesperado como com a energia pesada antes do acontecimento que virá ou não acontecer.

O pessimista é o medroso: é aquele que vai tremendo, quando vai. A postura do otimista é outra: mais espontânea e se tiver os pés no chão, mais disposto a enfrentar as adversidades.

Problemas sempre teremos. Em alguns momentos, pequenos, em outros, maiores. A forma como vamos lidar com eles é nossa responsabilidade. Temos, pelas nossas histórias de vida e familiar, tendência para um dos lados.

O que é importante lembrarmos é que podemos mudar, aprender a sermos mais otimistas e com os olhos na realidade. Sermos atentos às armadilhas que podem aparecer, sem ficarmos de olhos fechados com medo delas.

Aprender a viver é isso: desafiar nossas fragilidades para sermos mais fortes para o que der e vier.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O lugar que o homem não devia estar


mettus 123RF


Em meu bairro há diversas lixeiras coletivas, um pequeno contêiner cinza com tampa laranja. Nelas as pessoas colocam os lixos do cotidiano. Um caminhão apropriado regularmente coleta o material descartado.

Levei um susto da primeira vez em que vi uma pessoa saindo dela. Afinal, ela é funda e se corre risco nesta “aventura”. Que lugar é este em que vivemos que pessoas saem do lixo? A conhecida desigualdade, a conhecida ignorância, a conhecida falta de educação, a conhecida miséria que enriquece muitos bolsos de políticos neste país.

Já vi a cena do homem no lixo diversas vezes. Em uma delas, a pessoa colocou uma garrafa de plástico para não deixar a tampa cair. Ainda havia um cão, sempre fiel como é característica da espécie, ao lado da lixeira esperando seu amado dono.

Eu sei que pode parecer conversa de gente que se intitula sensível e de classe média. Não quero ser dessa maneira rotulada, quis escrever para pensar alto, pensar a impotência que às vezes nos toma por não conseguirmos lidar com a pobreza alheia.

Não conseguir aceitar que há gente que passa fome, que toma chuva e sente frio. O que nos parece básico, é luxo para o outro. Isso é triste demais. Não há como não me chocar, a cena não consegue ser banal para mim.

Talvez para muitos ver gente catando lixo e dormindo na rua já se tornou rotina. Isso é muito triste e me pergunto ao mesmo tempo em que divido com você: o que é possível fazer para mudar esta situação?

Concluo com o genial Manuel Bandeira, em um poema intitulado “O Bicho”:

Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Crianças de novo


Tetyana Kulikova 123RF


Minha sobrinha de vez em quando tapa seus ouvidos quando estão falando para ela palavras que ela não se interessa. Leia-se: sermões, explicações sobre um comportamento inadequado etc. Quando está em um dia menos tolerante, além de tapar com seus dedinhos os ouvidos, ela fecha os olhos e, em dias menos condescendentes ainda, canta um lá-lá-lá. Durma com esse barulho.

Como este texto não é a respeito de educação infantil, nem tocarei nesse assunto. A questão é que a criança, no caso dela de quatro anos, possui estes recursos para se proteger de algo não prazeroso.

Nós, adultos, perdemos a legitimidade de usá-los ou você se imagina fazendo isso em frente ao seu chefe? Ou quando sua namorada começa com um blá-blá-blá sem fundamento? Não podemos. Conseguimos divagar, pensar na lista do super, olhar para uma vitrine, prestar atenção em qualquer outra coisa que não a baboseira dita.

Cá para nós, há momentos em que seria muito útil ainda ter direito a tais meios. Já pensou, como seria mais divertido ouvir a conversa fiada de corruptos tapando os ouvidos, fechando os olhos e cantarolando? Talvez esta barreira fosse mais eficiente e assim não sentíssemos nas vísceras a indignação. Não apenas quanto aos corruptos, mas quanto a outras espécies de gente: pessoas que tentam inferiorizar os outros, que só têm veneno na língua, que mentem na maior “cara dura”, enfim, a gente sabe bem o que nos faz embravecer.

Então tá, combinado, da próxima vez que você ouvir aquele colega da academia falando um monte de mentiras, contando vantagem: lá-lá-lá.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Pichações

Andrey Khritin 123RF


No centro da minha cidade, um prédio antigo foi restaurado. Há pouco ficou pronto e muito bonito. Passei por ele uns dias atrás e fiquei inquieta quando vi uma pichação. Não grande, de tamanho média, em cor preta.

A marca invasora em nada tem a ver com aquele prédio que marca a história da cidade, como as demais construções antigas. A pichação mancha, estraga, empobrece.

Nunca pichei e nunca tive amigos que fizessem isso para afirmar com mais propriedade o que vou supor. O que faz alguém pegar seu spray e pichar? Às vezes vemos declarações de amor, hoje menos comuns, vemos símbolos de grupos, um nome, uma reclamação. Assim, são várias as vontades por trás da mão no spray.

Mesmo assim, eu generalizaria dizendo de duas uma: ou a pessoa quer estragar o que está ali, o que muito faz sentido quando o local pichado foi recém construído ou restaurado, ou a pessoa quer se incluir nessa beleza.

As reclamações ganham voz nos muros não apenas para o seu fim claro, reclamar, como também para mobilizar os transeuntes em relação a questões sociais. As declarações de amor saíram dos muros e ganharam espaço na pele, sob forma de tatuagens. É um jeito de gritar ao mundo o amor que alguém sente e o seu desejo de amar. Símbolos de grupos estão nas ruas para marcar um território e uma identidade.

Enfim, pichar, em minha opinião, deixa a cidade mais suja e mais bagunçada. Se os pichadores parassem um pouco para pensar em seus impulsos com o spray poderiam, em vez de fazer sujeira, fazer arte, se talento tiverem.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Literatura


Stanko Mravljak 123RF



Se eu não fosse psicóloga, seria professora de literatura. Adoro literatura e sofro, em pequena proporção, não se preocupem, com o fato de não ter tempo de ler tudo o que gostaria. Por que não comecei a ler bons livros mais cedo?

Sou encantada com os escritores, os bons, lógico, com a entrega que fazem as suas histórias, aos personagens que criam. Sou fascinada pela capacidade de alguém escrever centenas de páginas com maestria. Admiro o talento de romper a linguagem, isto é, não escrever simplesmente, mas escrever com sangue.

Escrever com sangue, para mim, significa usar as palavras corretas, de maneira acertada, em uma narrativa instigante, onde tudo, como num quebra-cabeça, se encaixa. Sem clichês, sem superficialidades, escrever com alma e originalidade.

Personagens fortes, que ganham vida, além do papel. Pensem em Rodrigo Cambará, de Érico Veríssimo ou em Anna Karenina, de Tolstói, por exemplo. São figuras que atravessam gerações e ganham imortalidade.

Escritores geniais ou muito bons não fazem apenas excelentes histórias com personagens interessantes. Eles criam um mundo, no qual mergulhamos para entender, não apenas o que se narra ali, mas o que acontece fora do papel, no contexto que vivemos, na vida que levamos. Sabemos mais de nós e da vida mediante a ficção construída por estes artistas.